Ricardo Vitorino do Nascimento

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As Árvores escolhem um Rei – II

In administração, anarco-capitalismo, anarquia, anarquismo, anarquismo cristão, atualidades, auto-gestão, auto-governo, autonomia, autoridade, comércio exterior, comércio internacional, comportamento, comunidade, cristianismo, cristianismo libertario, economia, espiritualidade, existencialismo, governo, hierarquia, história, igreja, indivíduo, individualidade, individualismo consciente, integridade, liberdade, libertarianismo, minarquia, objetivismo, opinião pessoal, poder, política, religião, sociedade, vida, vida cristã on maio 27, 2009 at 1:19 am

A estória do post anterior, foi contada por Jotão, filho de Gideão em alusão ao povo hebreu que teria constituído seu meio-irmão Abmelekh, filho de seu pai com uma concubina, como rei sobre eles em detrimento do próprio Jotão e de seus irmãos legítimos.

Mas, existe algo ainda mais profundo e perturbador nessa história que ocorreu um pouco antes deste evento, logo após Gideão ter liderado o exército e vencido a guerra contra os midianitas e libertado o povo.   

O povo disse a Gideão:_ Reina tu sobre nós, tu e teu filho, e o filho de teu filho, porque tu nos livraste das mãos dos midianitas.

Porém Gideão lhes disse:_ Não Reinarei eu sobre vós, nem tampouco meu filho sobre vós reinará; o Senhor Deus será o vosso Rei.

Nós somos como as árvores, somos oliveiras, figueiras, videiras, cada um de nós tem seu fruto, a boa novidade, a alegria, a doçura, a honra; Todos nós temos nossos dons, qualidades, habilidades e talentos dados pelo Criador, com os quais inspiramos os homens e assim o honramos.

O ideal é que cada um descubra que tipo de árvore é e que contribua com seu fruto para que assim todos possam ter acesso a todo tipo de fruto e também que a oliveira não queira dar figos, a figueira não queira dar uvas e a videira não queira dar azeitonas.

No entanto quando abrimos mão de nossa doçura, de nossa alegria, de nossos dons e talentos, de nossas qualidades e habilidades para constituir alguém sobre nós violamos este ideal e nos colocamos em uma posição de espectadores passivos deixamos de honrar a Deus e abençoar os homens para servir a um homem ou instituição, assim deixamos de lado nossas vocações para nos colocar numa posição de escravidão sob as ordens de outros.

Como na história das árvores, invariavelmente quem elegemos para governar sobre nós nos domina, nos oprime e faz uso de meios de manipulação e de instrumentos de coerção e dominação sobre nossas vidas, nos mantendo sob vigilância à sombra de seus espinhos e sob ameaça de fogo.

E ainda mais, tudo isto para servir aos seus interesses pessoais ou da instituição que representam e nunca jamais aos interesses daqueles que o elegeram. Quando renunciamos ao direito de nos auto-governar e nos colocamos sob a tirania de outros, estamos abrindo mão de nossa liberdade, de nossa autonomia, de nossa dignidade e de uma parcela significativa de nossa humanidade, parcela que eu chamo de Imagem de Deus !  Nos tornamos menos livres, menos autônomos, menos dignos e um pouco menos humanos, temos menos da semelhança de Deus !

Bom, tudo bem, mas a que homem ou instituição exatamente me refiro ?        A todos os homens de todas as instituições que exercem autoridade sobre outros, sem exceções, inclusive os bem-intencionados ! Sim existem estes, mas o fato de serem bem-intencionados não muda o fato de é assim que as coisas são ! É assim que a máquina funciona, seja na política, na economia, na religião, na empresa, na escola, num sindicato operário, num partido político, num coletivo anarquista, numa ong, numa associação de surf, numa banda de rock ! Em qualquer lugar em que exista uma instituição e se eleja alguém para ser o responsável, representar aos outros e tomar as decisões mais importantes este será invariavelmente o resultado final.

Algumas pessoas que estão lendo este post agora, principalmente as que me conheceram, devem estar assustadas ! Talvez pensem que eu me tornei um rebelde anarquista, quem sabe fiz até um moicano ! Não pessoal, continuo sendo o mesmo cara questionador de sempre, mas nessas minhas inquietações que tenho compartilhado com alguns de vocês e de certa forma tenho expressado através do blog, estou chegando a estas conclusões, não parto de pressupostos anarquistas ou anarco-capitalistas, leio sim sobre isto mais para ver as contradições que existem naqueles que se dizem libertários. 

Vejo nestes movimentos a mesma tirania que condenam, a mesma inflexibillidade, a mesma liderança, o mesmo messianismo que em qualquer um de seus maiores desafetos do comunismo ao nazismo. Então estamos perdidos certo ? não há saída ! devemos nos conformar e apenas sobreviver a isto até que morramos e nossos filhos e netos herdarão este mesmo modelo de vida em sociedade correto ?

Não ao meu ver, em minha opinião o grande erro das instituições, inclusive do cristianismo institucional é exatamente tentar mudar o mundo, mudar a sociedade, o sistema, seja pela revolução ou pela reforma, pela guerra ou pelo paz e amor, pelo ódio ou pelo perdão. É a imposição de um ideal à todos na base do você tem que mudar pra minha ideologia, pro meu partido, pra minha religião por que isto foi bom pra mim, vai ser bom pra você vai ser bom pra todo mundo e assim nós mudaremos o mundo !

Como tenho dito, não tenho a pretensão de mudar nada, não quero mudar nada, não quero ter nada a ver com esta ordem presente nem com qualquer outra, não tenho compromisso com movimentos, ideologias, filosofias, religiões, estilos de vida ou com o que quer que seja que se pretenda ser um transformador do mundo ! Nos últimos meses tenho tido uma experiência de uma vida mais ligada à pessoas que à instituições, me importo mais com uma amizade à milhares de kilômetros de distância mantida via internet que com as relações do país com o de meus amigos, me importo mais com as pessoas que estão à minha volta, com quem me relaciono de algum modo que com quaisquer instituições das quais possam fazer parte, me importo mais com você que está lendo este blog agora que com qualquer organização ou algo parecido a que você possa tomar parte.

Enfim, creio ser possível, talvez seja uma utopia mas ainda assim eu creio, viver de uma forma simples, nos auto-governar sem a interferência de alguém que se coloque sobre nós, cada um contribuindo com aquilo que o Criador nos deu como único para constituir uma humanidade digna que expressa a Sua imagem e semelhança naquilo que lhe é mais peculiar a autonomia e a liberdade do ser ! e então …” serão como árvores plantadas junto a ribeiro de águas, que a seu tempo dá o seu fruto, cujas folhas não murcham e tudo quanto fizer prosperará”. Livro dos Salmos cap. 1, verso 3

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Feliz Aniversário a todos nós do Refúgio do Rock !

In Blogroll, espiritualidade, opinião pessoal, sociedade on maio 14, 2008 at 1:42 pm

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Hoje dia 14 de maio de 2008, o Refúgio do Rock completaria 15 anos, por absoluta falta de tempo em meio a trabalho, cursos e outras atividades não poderei postar um novo texto a este respeito. Farei isto mais tarde onde escreverei sobre a relação do movimento white metal da época e o que tenho visto no meio cristão nos dias de hoje. Por hora reproduzo aqui um post do ano passado como uma homenagem póstuma.

REFÚGIO DO ROCK, O ESPAÇO CRISTÃO MAIS RADICAL DE TODOS !

Pouca gente se lembra mas neste mês de maio comemoraríamos 14 anos de Refúgio do Rock, como um dos poucos remanescentes, faço questão de relembrar este trabalho que foi um marco no meio cristão e underground nacional.

Era o começo de 1993, o Sandro Baggio havia chegado a um ano e pouco de um trabalho de dois anos no navio Doulos da Operação Mobilização, entre muitas coisas que vira ao redor do mundo, especialmente na Europa pensou em reproduzir aqui um trabalhos com roqueiros que existia em Amsterdan num lugar chamado Steiger 14, uma espécie de hangar para barcos.

Encontramos um galpão na Av. Nazareth quase em frente ao corpo de bombeiros, onde funcionava uma agência de veículos, de piso rústico preto e portões de grade com um breve recuo na frente, nos mudamos pra lá e pouco depois estávamos arrumando o espaço para o trabalho, fizemos um palco com cerca de um metro e meio,- me lembro de “varrer o palco com os cabelos” quando bangueava, rs- pouco antes de começar o Cláudio “Tibérius” e o Carlão que tocavam na banda “Devilcrusher” pediram pra ensaiar no local, chegaram por volta das 14 hs e quando começaram a tocar e o Carlão a cantar com vocal gutural, não demorou dois minutos para que dois vendedores da loja de carros ao lado entrassem correndo pedindo para diminuirmos o volume ou chamariam a polícia !

Estávamos arrumando a parte elétrica para a iluminação e eles ensaiando, eu operava a mesa de aúdio e na época curtia heavy, trash e eles tocando aquele death metal… um alicate que estava na minha mão caiu e quebrou ! e nós falamos que era por causa do som, só pra tirar onda, rsEntão no dia 14 de maio abriram-se os portões do Refúgio do Rock pela primeira vez, as bandas que inauguraram foram Devilcrusher e Justa Advertência, as calçadas e o canteiro central da Av. Nazareth costumavam ficar lotados de headbangers –vulgo metaleiros-, punks, straigh-edges, góticos, grunges… ás vezes parecia uma nuvem “negra” sobre o bairro ou então que brotavam do chão de tantos que apareciam de uma só vez, até carecas –skinheads – que estudavam na ETE-GV freqüentavam lá, uma vez achamos que ia rolar confusão mas ficou tudo na paz… figura era o Jota, um punk que sempre arrumava confusão e costumava jogar a jaqueta pro alto, que quase sempre caía na iluminação e dava trabalho pra tirar…

Rolavam pelo menos dois shows a cada sexta, tocavam bandas de todos estilos desde Rock’nRoll até black metal – como estilo musical- as bandas que costumavam tocar no início do trabalho eram Metábole, Calvário, Martíria, Justa Advertência, Ruptura, Devilcrusher, entre outras.Quando houve o “Hollywood Rock” daquele ano fomos fazer a divulgação e um evento que iríamos realizar o “Refúgio Metal Fest”, foi muito engraçado, o termo White metal ainda era recente aqui no Brasil, teve gente que me perguntou: _White Metal ? não tem nada a ver com White Power não né ?

Rs, teve outro carinha que me falou:

_White Metal ! pô, já ouvi falar mas não sabia que tinha no Brasil…

E assim começamos, fizemos este festival com as bandas Devilcrusher, Martíria, Metábole, Justa Advertência e Calvário, creio que foi o primeiro festival de metal cristão do país, também havia o “Rosa de Saron”uma banda de hard/heavy que fazia um som muito bom, se não me engano foi a primeira vez que uma banda católica tocou numa igreja evangélica ! sim, o Rosa de Saron era uma banda católica ! pra nós foi algo natural, mas na época com certeza foi uma quebra de paradigma no meio evangélico !

Nessa época havia o Christian Metal Force -CMF- do qual o Cláudio e o Carlão eram líderes, o Cláudio, o Sandro e o Christian do Justa Advertência editavam o fanzine White Metal Detonation, tinha tambem o Samuel Borges que sempre dava uma força e toda galera de campinas-SP, além do Justa tinha o pessoal do Ruptura que eu me lembre, nessa época veio uma cara de fora que era bem conhecido na cena metal, o professor de guitarra Marcos Mantovani, o Marcão…, o Roney que estava no CMF veio pro Refúgio e o trabalho começou a crescer e ficar conhecido nacionalmente. Fizemos o I White Metal Fest com bandas locais e de outros estados, das de fora me lembro de Afterdeath-ES e Necromanicide-RJ, no show deles aconteceu uma coisa muito engraçada, o vocalista fazia várias performances com uma Bíblia, caveira, fogo, espada, numa dessas ele brandindo a espada sem querer cortou o lábio do guitarrista que teve que ser levado ao pronto-socorro, quem o levou foi o batera da banda Xavier, um negão com cabelo comprido e o Marcão que na época alem de cabelo comprido, tinha uma barba enorme e naquela dia a Míria tinha feito duas tranças nele, resultado parecia um viking e lá foram os três, chegando no pronto socorro a enfermeira disse:
_ já sei foi briga né ? vocês estavam brigando…
_ não, não a gente estava na igreja…
_ na igreja ? vocês ? e como isso aconteceu ?
_ com uma espada…
_ quê ? uma espada ? numa igreja ? vocês ? Rsss

O Marcão contando isso depois foi muito hilário, os caras do Tormented Death-PR tambem estavam lá, veio gente do Brasil inteiro pra ver este que foi primeiro grande festival nacional do underground cristão, as portas da igreja para estes trabalhos foram escancaradas, em todos os lugares estes ministérios começaram a ser reconhecidos, todo mundo se conhecia ao menos de nome, ouvíamos falar do pessoal do Rio, do Enoque, S8, o Serginho que era de lá começou a freqüentar também, o Sandro que era um grande amigo do Fábio de BH,-Belo horizonte- falava com ele direto, ele ia nos shows quando estava em sampa, eu tive a oportunidade de ir junto com o Marcão, o Paulinho e o Ricardi pra BH e passar um tempo com o Pr.Fábio, o pessoal de lá vinha pra cá, e mantínhamos uma amizade e como disse o Sandro a um tempo atrás uma certa inocência…

Depois houveram várias outras coisas legais que aconteceram, e outras nem tanto, gravamos o disco do Refúgio, uma coletânea com várias bandas do Brasil, teve o show do Tourniquet uma banda de trash dos USA famosa na cena mundial com cobertura das principais revistas como RockBrigade, Roadie Crew, depois houve o I Fórum White Metal, o tributo ao Vengenace Rising, ao Seventh Angel, -ficou faltando um ao Trouble, rs,-nessa época a revista Veja chegou a fazer uma reportagem sobre o Refúgio intitulada “O ESPAÇO CRISTÃO MAIS RADICAL DE TODOS !” que infelizmente não foi publicada, não sei bem porque, aconteceram algumas coisas ruins também, veio a lei do silêncio e não tínhamos tratamento acústico, então paramos com o trabalho por um bom tempo…

Depois de alguns anos os trabalhos haviam crescido por toda parte, bandas tinham mudado, pessoas tinham saído, viajado, então mudamos também de estratégia, o Devilcrusher se tornou Berith, o Refúgio como trabalho acabou, fizemos um show de despedida, e começamos um trabalho com uma nova visão, o Berith fazia shows tocava com bandas não cristãs, eu fui roadie deles durante todo esse tempo, e o pessoal do Refúgio com mais alguns irmãos começamos um novo trabalho na época a Comunidade Ágape, depois Projeto Ágape, hoje Projeto 242, aberto a todo tipo de pessoa, roqueiros ou não, mas como mesmo espírito que tínhamos no Refúgio, aceitar as pessoas como elas são e deixar que o Espírito Santo fizesse o resto.

Éramos como uma grande tribo de uma grande nação metal cristã, no Refúgio do Rock conheci pessoas muito especiais, algumas que me acompanham até hoje como o Sandro, o Cláudio, fiz muitos amigos cheguei a ser padrinho de casamento de alguns, alguns reencontrei recentemente, alguns não estão mais conosco, foram para o Pai,… por isso não posso deixar esta data passar em branco…

Esta é minha singela homenagem a todos aqueles que fizeram do Refúgio do Rock uma realidade e deram sua contribuição para um importante capítulo da história das missões urbanas no Brasil.

Parabéns a todos nós do Refúgio do Rock, Quem tem ouvidos, ouça !